Entenda como stablecoins impactam políticas monetárias e estabilidade financeira global posições do BIS, bancos centrais, soberania monetária e regulação global.
Introdução
As stablecoins criptomoedas projetadas para manter um valor estável em relação a ativos como moedas fiduciárias se tornaram mais do que uma inovação tecnológica: são parte de um debate macroeconômico e de estabilidade financeira global. Instituições como o Banco de Compensações Internacionais (BIS), bancos centrais e economistas ponderam seus riscos e oportunidades em um mundo cada vez mais digitalizado e interconectado.
Neste artigo, exploramos os impactos potenciais das stablecoins sobre políticas monetárias tradicionais, soberania monetária, estabilidade financeira sistêmica e o papel vital da regulação prudencial.
O Que São Stablecoins?
Stablecoins são um tipo de criptoativo projetado para minimizar a volatilidade de preço, geralmente mantendo um vínculo (peg) com moedas fiduciárias como o dólar ou outro ativo de reserva. Além de servir como meio de pagamento digital, elas têm sido usadas em negociação de criptoativos e, em alguns casos, em pagamentos transfronteiriços.
Embora reduzam volatilidade em comparação com criptos tradicionais como Bitcoin, stablecoins ainda apresentam riscos e desafios significativos quando escaladas para uso amplo no sistema financeiro global.
Impactos Macroeconômicos Potenciais
Efeito na Transmissão da Política Monetária
Uma das maiores preocupações dos bancos centrais é que stablecoins poderiam enfraquecer a transmissão das políticas monetárias tradicionais. Quando estes ativos competem diretamente com moeda fiduciária ou depósitos bancários, instrumentos clássicos como ajustes da taxa de juros podem perder eficácia. Banque de France
Por exemplo, o uso crescente de stablecoins pode criar um “efeito substituição”: agentes econômicos podem preferir essas moedas digitais em vez de dinheiro tradicional, especialmente em países com sistemas bancários menos desenvolvidos. Isso pode reduzir a capacidade de um banco central influenciar a economia por meio de seus mecanismos habituais de política monetária.
Soberania Monetária e Fluxos de Capital
O BIS e outros órgãos alertam que a expansão de stablecoins denominadas em moedas fortes pode comprometer a soberania monetária de países emergentes, porque grandes volumes de moeda digital privada poderiam operar fora do controle direto das autoridades monetárias locais.
Essa dinâmica pode incentivar fuga de capitais ou causar pressões sobre a moeda local fenômeno semelhante à “dolarização”, mas em ambiente digital que afeta políticas fiscais e monetárias domésticas.
Estabilidade Financeira e Riscos Sistêmicos
Risco de “Runs” e Vendidas Forçadas de Ativos (Fire Sales)
Quando stablecoins têm reservas substanciais em títulos de alta qualidade como notas do Tesouro uma perda de confiança generalizada poderia levar a eventos de saídas massivas de fundos (runs). Isso poderia forçar a venda desses ativos para cobrir resgates, criando volatilidade nos mercados de títulos e contágio financeiro.
O Banco Central Europeu (ECB) também advertiu que um crescimento substancial das stablecoins poderia sugar depósitos bancários tradicionais, deixando os bancos com menos liquidez estável e potencialmente aumentando riscos de instabilidade financeira. Reuters
Interconexões com o Sistema Bancário Tradicional
Quando instituições financeiras tradicionais ou grandes fundos detêm grandes participações em stablecoins, sua integração com o sistema financeiro tradicional pode criar canais de transmissão de risco entre mercados cripto e mercados regulamentados. Isso representa uma vulnerabilidade sistêmica, especialmente em momentos de estresse financeiro. Banco de Compensações Internacionais
Glossário Regulatório e Respostas das Autoridades
Posição do Banco de Compensações Internacionais (BIS)
O BIS tem repetidamente alertado que, sem regulação prudencial rigorosa, stablecoins podem representar riscos tanto à estabilidade financeira quanto à soberania monetária. Instituições privadas de stablecoins muitas vezes carecem dos pilares que sustentam o dinheiro soberano como liquidez garantida por bancos centrais e funções de liquidação universal.
O relatório anual do BIS de 2025 enfatiza que, apesar da promessa de eficiência e inovação, stablecoins em sua forma atual não satisfazem critérios essenciais para serem consideradas “dinheiro sólido” no sistema financeiro global.
Estruturas Reguladoras Nacionais e Internacionais
Governos e autoridades estão adotando abordagens diversas:
- Estados Unidos: O GENIUS Act de 2025 estabeleceu regras claras para emissão de stablecoins lastreadas por reservas auditáveis e padrões rigorosos de transparência.
- União Europeia: O regime MiCA exige que emissores mantenham reservas equivalentes e transparentes, embora haja desafios ainda em lidar com ativos emitidos em múltiplas jurisdições.
- Outras jurisdições: Países como a Índia permanecem cautelosos, citando riscos macroeconômicos, de crime financeiro e ameaça à eficácia da política monetária. Reuters
- Reino Unido: Propõe limites de posse e requisitos de liquidez para proteger a estabilidade financeira doméstica. Cinco Días
FAQ(Perguntas Frequentes)
1. Stablecoins podem substituir moedas nacionais?
Não, stablecoins não substituem moedas soberanas nem instrumentos de política monetária tradicional, especialmente sem supervisão robusta e integração ao sistema financeiro.
2. Qual principal risco sistêmico associado às stablecoins?
Risco de saídas massivas de fundos (runs) e vendas forçadas de ativos de reserva, que podem desestabilizar mercados financeiros tradicionais. Banco de Compensações Internacionais
3. O que o BIS diz sobre stablecoins?
O BIS alerta que stablecoins, sem regulamentação forte, representam riscos à estabilidade financeira e à soberania monetária e que não cumprem critérios de “dinheiro sólido”.
4. Como a regulação pode mitigar riscos?
Legislações como o GENIUS Act nos EUA e MiCA na UE exigem reservas transparentes e auditorias, reduzindo vulnerabilidades sistêmicas.
5. Elas contribuem para inclusão financeira?
Potencialmente ao facilitar pagamentos digitais e remessas mas esse benefício exige supervisão prudencial para evitar riscos sistêmicos.
Conclusão
Stablecoins representam uma inovação notável com potencial para melhorar eficiência de pagamentos, ampliar inclusão financeira e acelerar a digitalização de mercados. Contudo, sua adoção em larga escala levanta preocupações macroeconômicas e de estabilidade financeira que não podem ser ignoradas incluindo impactos sobre políticas monetárias, soberania monetária e canais tradicionais de liquidez.
O consenso emergente entre economistas, bancos centrais e organizações internacionais é que stablecoins só podem desempenhar um papel sustentável se forem incorporadas a um arcabouço regulatório robusto, com transparência de reservas, supervisão prudencial e mecanismos que preservem a estabilidade macroeconômica global.



