A média de taxas dos fundos caiu a mínimas históricas, enquanto ETFs baratos capturam quase todo o fluxo e produtos caros perdem bilhões. Entenda o que isso significa para sua carteira e como avaliar custo x valor.
Nos últimos anos, a indústria de investimentos entrou numa guerra silenciosa:
- de um lado, fundos tradicionais e ETFs caros, cobrando taxas cheias por estratégias muitas vezes simples;
- do outro, uma enxurrada de ETFs de baixo custo, com taxas que chegam a 0,03% ao ano em grandes índices.
O investidor votou com o bolso:
- o estudo da Morningstar mostra que, em 2024, a taxa média ponderada por ativos de fundos nos EUA caiu para 0,34%, com os 20% mais baratos recebendo cerca de US$ 930 bilhões de entradas, enquanto os 80% mais caros tiveram US$ 254 bilhões de saídas — um gap de US$ 1,2 trilhão.
- produtos mais caros, como o tradicional SPY, começam a perder terreno para equivalentes mais baratos como VOO e IVV, inclusive com recordes de saídas.
Neste artigo, vamos olhar como essa guerra de preços nos ETFs está redesenhando a indústria e o que isso significa para você, que está montando seu portfólio.
Fundos e ETFs com taxas em mínimas históricas – mas a disputa continua
A queda estrutural das taxas
O movimento não começou ontem:
- por anos, gestoras vêm cortando taxas de índices amplos, empurrando o custo para perto de zero em alguns casos;
- gigantes como Vanguard, BlackRock e outras travam uma disputa aberta em torno de quem oferece o ETF mais barato em grandes benchmarks.
O estudo da Morningstar mostra que:
- a taxa média caiu de 0,36% para 0,34% em 2024;
- isso gerou uma economia estimada de US$ 5,9 bilhões em despesas para investidores em um único ano.
Pode parecer pouco por ano, mas em décadas, essa diferença compõe de forma violenta no resultado final.
A “corrida para zero” e o papel dos ETFs ativos
Ao mesmo tempo, o mercado de ETFs chega a um ponto em que:
- a parte de ETFs passivos ultrabaratos está saturada;
- cresce a fatia de ETFs ativos, que já representam mais de metade do número de ETFs listados, embora com taxas ainda um pouco maiores.
A dinâmica agora é mais sofisticada:
- ainda há guerra de taxas em produtos básicos (S&P 500, total market, etc.);
- mas também há espaço para ETFs ativos competitivos, que cobram mais que um índice puro, porém menos do que um fundo tradicional equivalente.
Como o fluxo está punindo produtos caros e favorecendo ETFs baratos
O caso clássico: SPY perdendo terreno para VOO e IVV
Um exemplo didático é a disputa entre três gigantes que replicam o S&P 500:
- SPY (State Street) – mais antigo e com maior liquidez intraday, mas taxa de ~0,09%;
- VOO (Vanguard) e IVV (iShares) – com taxa de 0,03%, muito mais baratas.
Em 2025:
- o SPY registrou saídas recordes de US$ 32,7 bilhões, mesmo com o S&P 500 em alta;
- VOO e IVV, ao contrário, captaram dezenas de bilhões em novos recursos;
- o motivo central apontado por analistas é custo — investidores, especialmente de varejo, priorizando taxas mais baixas.
Aqui fica claro:
Mesmo quando o produto é praticamente o mesmo, a taxa virou fator decisivo na escolha do ETF.
Fluxo concentrado nos fundos mais baratos
A pesquisa da Morningstar reforça a tendência:
- os 20% de fundos mais baratos captaram US$ 930 bilhões;
- os demais 80% tiveram US$ 254 bilhões em saídas líquidas;
- o “gap de fluxo” de US$ 1,2 trilhão é um recado alto e claro para produtos caros.
Esse padrão aparece tanto em:
- ETFs passivos de índice;
- quanto em fundos e ETFs ativos que não conseguem justificar uma taxa maior com performance ou proposta de valor diferenciada.
ETFs como “aspirador” de capital de fundos tradicionais caros
A migração silenciosa
Enquanto ETFs baratos ganham espaço, muitos fundos tradicionais de gestão ativa enfrentam:
- anos seguidos de saques líquidos;
- dificuldade de competir com ETFs que:
- cobram menos,
- oferecem liquidez em bolsa,
- e têm maior transparência.
Cada corte de taxa em ETFs de grande porte — como o anúncio da Vanguard reduzindo custos em dezenas de produtos — torna ainda mais difícil justificar estruturas com 2% ao ano + performance em estratégias que muitas vezes não entregam alfa consistente.
O que isso muda na vida do investidor
Para o investidor final, esse processo significa:
- mais acesso a exposições diversificadas com custo muito baixo;
- pressão para que gestores ativos repensem o que entregam (não dá mais para vender “quase índice” com taxa de hedge fund);
- possibilidade real de construir carteiras robustas com custo médio muito abaixo de 1% ao ano.
Por outro lado, existe o risco do investidor cair no extremo oposto:
escolher tudo apenas pelo preço, sem avaliar risco, liquidez, tracking error, governança e adequação ao seu objetivo.
Como escolher entre ETF barato e fundo/ETF mais caro na prática
Custo importa, mas não é tudo
Custo é um dos poucos fatores relativamente previsíveis em investimento:
- você não sabe quanto o mercado vai render;
- mas sabe quanto a taxa vai comer do seu resultado todo ano.
Ainda assim, não dá para decidir só por:
“esse é o mais barato, logo é o melhor.”
Pontos a avaliar:
- Qual o objetivo do produto? É replicar índice ou entregar estratégia ativa diferenciada?
- Existe histórico de consistência? Performance ajustada a risco, não só retorno bruto de um ano bom.
- A estrutura faz sentido para você? ETF ativo pode ter vantagens fiscais/operacionais, mesmo com taxa acima de 0,50%.
Quando um ETF mais caro pode fazer sentido
Alguns casos em que faz sentido pagar um pouco mais:
- acesso a estratégias que você não conseguiria replicar sozinho (crédito complexo, fatores multifatoriais, gestão de duration, etc.);
- ETFs ativos com histórico sólido, equipe reconhecida e mandato claro;
- exposição a nichos onde não existe alternativa barata equivalente.
Mesmo assim, a pergunta central é:
“Essa taxa extra se paga no longo prazo, considerando o valor que essa estratégia traz para a minha carteira como um todo?”
FAQ – Taxas de ETFs, guerra de preços e migração de fluxo
Sempre devo escolher o ETF mais barato disponível?
Na maioria dos casos, custo menor é uma vantagem, especialmente em exposições básicas (S&P 500, MSCI World, etc.). Mas em algumas estratégias específicas, pode fazer sentido pagar um pouco mais se o produto realmente entregar algo que o índice simples não entrega.
Fundos tradicionais de taxa alta vão acabar?
Não necessariamente, mas tendem a perder espaço se não entregarem valor claro. Quem continuar cobrando caro por algo parecido com um índice tende a ver saídas persistentes de fluxo.
ETFs ativos valem a pena ou é melhor ficar só no passivo baratinho?
Depende do objetivo. ETFs passivos ultra baratos são ótimos como base de carteira. ETFs ativos podem fazer sentido como satélite, em nichos onde a gestão ativa tem mais chance de agregar valor — sempre avaliando taxa, histórico e coerência da estratégia.
Como saber se a taxa de um ETF é “alta demais”?
Compare com:
- produtos que oferecem exposição similar;
- médias da categoria em relatórios de casas como Morningstar e ETFGI;
- o que você espera que aquela estratégia entregue.
Se você descobre que está pagando 1,5% ao ano por algo que existe em ETF com 0,10% e proposta similar, provavelmente está caro demais.
Taxa baixa significa risco baixo?
Não. A taxa é o custo do produto, não o risco do ativo. Você pode ter:
- ETF baratíssimo de ações super voláteis;
- fundo caro de estratégia relativamente defensiva.
Risco está na exposição da carteira, não só no custo.
Conclusão
A guerra de preços nos ETFs deixou uma mensagem clara em 2024–2025:
- o investidor não aceita mais pagar caro por algo que se parece com índice;
- fluxos massivos migraram para ETFs baratos, empurrando a taxa média dos fundos para mínimas históricas;
- gestoras que insistem em cobrar caro sem entregar valor estão sendo penalizadas pela saída de capital.
Ao mesmo tempo, o avanço de ETFs ativos mostra que não se trata de uma cruzada “passivo vs ativo”, e sim de uma:
“cruzada contra o custo injustificável”.
Para você, isso abre uma janela única:
- construir carteiras muito mais eficientes em custo;
- ser mais crítico com o que está pagando;
- combinar o melhor dos dois mundos: núcleo barato + satélites realmente diferenciados.



