A indústria de ETFs globais bateu US$ 19,25 tri em ativos e US$ 1,82 tri em entradas em 2025, enquanto a iShares caminha para cerca de US$ 450 bi de captação no ano. Entenda como esses fluxos estão redesenhando o mapa entre ações, renda fixa e commodities e o que isso significa para o investidor brasileiro.
Introdução: quando o “produto de nicho” vira a infraestrutura do mercado
Se você ainda pensa em ETF como “só mais um fundo passivozinho de índice”, 2025 está esfregando outra realidade na sua cara.
De acordo com a ETFGI, a indústria global de ETFs:
- atingiu US$ 19,25 trilhões em ativos no fim de outubro;
- registrou US$ 1,82 trilhão em inflows no ano, o maior valor da história;
- e emplacou 77 meses seguidos de entrada líquida.
Equity ainda lidera, mas renda fixa e commodities ganharam peso relevante na composição desses fluxos.
Ao mesmo tempo, a BlackRock informou que está a caminho de um ano recorde de captação na família iShares, com cerca de US$ 450 bilhões em entradas em 2025, sendo US$ 100 bilhões só no quarto trimestre, segundo o CFO Martin Small.
Traduzindo:
ETF virou sistema operacional do investimento global
e a iShares, na prática, virou o “default” mundial de exposição a índices para muita gente grande.
No próximo tópico, vamos abrir esses números e entender como o dinheiro está se distribuindo entre ações, renda fixa e commodities.
1. A fotografia de 2025: ETFs globais em US$ 19,25 tri e inflows recordes
1.1. O tamanho da indústria hoje
O relatório de outubro da ETFGI mostra que:
- ativos em ETFs globais chegaram a US$ 19,25 trilhões, novo recorde;
- foram US$ 279 bilhões de inflows só em outubro;
- o acumulado do ano bateu US$ 1,82 trilhão em entradas líquidas, superando facilmente 2024;
- a indústria soma mais de 15 mil produtos, de quase 1.000 provedores, listados em 83 bolsas em 65 países.
Ou seja: ETF deixou de ser “um produto” e passou a ser uma camada de infraestrutura do mercado.
1.2. Quem puxa os fluxos: ações, renda fixa e commodities
Quando você quebra os fluxos por classe de ativo, a foto fica mais interessante:
Em outubro de 2025:
- Equity ETFs
- captaram cerca de US$ 138,9 bilhões;
- acumulam mais de US$ 816 bilhões de inflows no ano.
- Bond ETFs (renda fixa)
- receberam US$ 52 bilhões em outubro;
- somam US$ 366 bilhões de inflows em 2025, bem acima de 2024.
- Commodity ETFs
- adicionaram US$ 9,6 bilhões no mês;
- acumulam US$ 82,7 bilhões no ano, contra menos de US$ 8 bi no mesmo período de 2024.
Moral da história:
- o investidor global continua querendo ações,
- mas está reforçando renda fixa e recolocando commodities no radar (ouro, metais, energia) como proteção e diversificação.
No próximo ponto, vamos ver quem está surfando melhor essa maré e por que a iShares está disparada na frente.
2. iShares como “default” global: a máquina de captação da BlackRock
2.1. Market share: iShares na frente, e com folga
Ainda segundo a ETFGI, a iShares lidera a indústria global de ETFs com:
- cerca de US$ 5,4 trilhões em ativos;
- algo como 28% de market share global em ETFs.
Atrás dela vêm:
- Vanguard, com aproximadamente US$ 4,1 trilhões (21,4% de share);
- SPDR (State Street), com cerca de US$ 1,95 trilhão (10,1% de share).
Somados, esses três players concentram quase 60% de todos os ativos em ETFs no mundo. Os outros 925 provedores dividem o resto.
2.2. O ano recorde de fluxos na iShares
Aí entra a cereja do bolo: segundo a Reuters, a BlackRock projeta cerca de US$ 450 bilhões em entradas na família iShares em 2025, o que deve ser recorde histórico de captação anual.
Detalhes importantes:
- aproximadamente US$ 100 bilhões vieram só no quarto trimestre (até 5 de dezembro);
- boa parte dessa captação vem de produtos “core” (S&P 500, global, Treasuries, crédito) e também de temáticos/ativos, como IA e fatores.
Na prática, iShares virou:
- o “cardápio padrão” de muita gestora, fundo de pensão, private e plataforma de varejo;
- sinônimo de “ETF de referência” em várias categorias (S&P 500, MSCI World, Treasuries, etc.).
2.3. Por que a iShares virou o “default” de exposição a índices?
Alguns motivos estruturais:
- Amplitude de linha
- iShares tem ETF pra quase tudo:
- ações por país/região,
- setores,
- fatores (value, quality, momentum),
- renda fixa de todos os tipos,
- ESG, temáticos, commodities, cripto ETPs em algumas jurisdições.
- iShares tem ETF pra quase tudo:
- Distribuição
- está plugada em praticamente todas as grandes plataformas globais,
- é o “primeiro nome” que aparece no shelf de muitas casas institucionais.
- Escala e custo
- escala gigantesca permite taxas competitivas em vários índices core;
- isso pressiona concorrentes e mantém iShares com vantagem de custo em muitos mercados.
- Percepção de robustez
- sendo parte da maior gestora de ativos do mundo (mais de US$ 13 tri), há uma percepção de robustez operacional e de governança.
Para o investidor global, a equação é simples:
“Preciso de um ETF para expor meu portfólio a X. A chance de o primeiro nome ser um iShares é enorme.”
3. O que esses fluxos dizem sobre o comportamento do investidor global
3.1. Ações seguem no centro mas com “contrapeso” em renda fixa e commodities
Quando você cruza:
- equity liderando inflows,
- bond ETFs ganhando share,
- e commodities renascendo,
fica claro que o investidor global está:
- continuando a jogar o jogo de risco, via ações;
- recompondo renda fixa como pilar de renda e proteção;
- adicionando commodities como hedge contra inflação, choques geopolíticos e volatilidade de juros.
Não é uma postura ultra-defensiva, mas também não é “all in tech”. É uma carteira mais balanceada, usando ETFs como engrenagem principal.
3.2. ETFs como “atendimento em balcão único” para alocação
Outro ponto importante: o ETF virou a maneira padrão de implementar decisões de alocação:
- o CIO decide aumentar exposição a Europa, crédito IG e ouro;
- em vez de montar uma lista de 30 papéis, ele faz:
- compra 2 ou 3 ETFs de equity europeia,
- 1 ou 2 bond ETFs,
- e um ETF de ouro;
- tudo isso com execução rápida, liquidez, rebalanceamento mais simples e custo transparente.
E adivinha de quem são muitos desses ETFs? iShares, Vanguard, SPDR e alguns poucos players grandes.
4. E para o investidor brasileiro: o que fazer com essa informação?
4.1. Entender que ETF não é “modinha gringa”, é infraestrutura
Para quem está no Brasil e investe:
- via BDRs de ETFs na B3,
- ou via corretoras internacionais,
esses dados servem como um aviso:
- ETF não é brinquedo novo,
- nem só ferramenta de day trade em índice.
É:
- a forma como o mundo implementa alocação de capital hoje,
- tanto para varejo quanto para institucional.
4.2. Usar ETFs globais como base de diversificação sem esquecer do risco
Algumas ideias práticas (não é recomendação de compra, é raciocínio):
- usar ETFs globais de ações (MSCI World, ACWI, etc.) como base de exposição internacional;
- adicionar bond ETFs globais como parte da camada de renda fixa em moeda forte (para quem aceita risco cambial);
- considerar commodities via ETFs (ouro, cestas de metais) como proteção tática.
Mas sempre com pontos de atenção:
- ETFs não eliminam risco de mercado podem cair forte em crises;
- exposição cambial (dólar/euro) adiciona outra camada de volatilidade;
- concentração excessiva em um único provedor ou tema pode virar problema.
Gestão de risco continua sendo o jogo real.
FAQ ETFs globais, fluxos recordes e iShares
1. O fato de os ETFs globais estarem em US$ 19,25 tri significa que é “seguro” investir neles?
Não.
Significa que o veículo ETF ganhou escala e confiança como infraestrutura. Mas:
- o risco de mercado dos ativos lá dentro continua existindo;
- um ETF de ações pode cair tanto quanto o índice que ele replica;
- um ETF de renda fixa pode sofrer com alta de juros ou default de emissores.
O que melhora é transparência, custo e liquidez, não a eliminação de risco.
2. iShares é sempre melhor que outros provedores?
Não necessariamente.
- iShares tem escala, liquidez e uma linha muito ampla;
- mas existem ETFs de Vanguard, SPDR, Amundi, etc. com:
- taxas menores,
- tracking mais eficiente,
- ou melhor encaixe em uma estratégia específica.
Vale sempre comparar:
- taxa de administração,
- liquidez,
- tracking error,
- tamanho do fundo,
- e exposição exata do índice.
3. Esses fluxos recordes não indicam que o mercado pode estar “cheio demais” e perto de topo?
Podem, em alguns segmentos.
- Fluxos recordes mostram forte apetite por ETF e ativos de risco;
- mas, historicamente, grandes entradas já aconteceram perto de picos em alguns ciclos.
É por isso que você não deve usar fluxo como único critério de decisão. Ele é um indicador de comportamento, não uma garantia de que a festa vai continuar.
4. Vale a pena trocar todos os meus fundos por ETFs globais?
Para a maioria das pessoas, a resposta equilibrada é: não precisa ser 8 ou 80.
- ETFs podem substituir parte dos fundos caros e pouco transparentes;
- mas, em alguns casos, um fundo específico (multimercado, crédito local, estratégia diferenciada) pode continuar fazendo sentido.
A ideia é usar ETFs para:
- baratear a base da carteira,
- ganhar diversificação global,
- e ter mais controle de alocação.
5. Como começar a estudar ETFs globais sendo iniciante?
Passos práticos:
- Entender a diferença entre ETF de ações, de renda fixa, de commodities e temáticos.
- Pesquisar os ETFs “core” mais usados (S&P 500, MSCI ACWI, Treasuries, etc.).
- Ver como acessar via BDR na B3 ou via conta internacional.
- Começar com valores pequenos, priorizando diversificação em vez de apostas concentradas.
- Estudar sempre o documento de referência (fato relevante, prospecto, factsheet).
Conclusão: o mapa do dinheiro mudou e os ETFs estão no centro
Os números de 2025 deixam pouca dúvida:
- ETFs globais em US$ 19,25 trilhões de ativos;
- US$ 1,82 trilhão em inflows no ano, com 77 meses seguidos de entradas;
- iShares caminhando para cerca de US$ 450 bilhões em captação, um dos melhores anos da sua história.
Isso mostra que:
- o ETF virou infraestrutura padrão para ações, renda fixa e commodities;
- iShares consolidou-se como máquina de captação global, o “default” em várias categorias;
- o jogo hoje é menos “qual ação específica eu compro?” e mais “qual bloco de exposição eu quero na carteira e via qual ETF?”.
Para você, investidor brasileiro, o recado é direto:
- ignorar ETFs globais é ignorar onde boa parte do dinheiro institucional está se movimentando;
- ao mesmo tempo, entrar sem entender risco é convite ao desastre.
O equilíbrio está em:
- usar ETFs para ganhar eficiência e diversificação,
- sem abrir mão de gestão de risco, horizonte de longo prazo e educação contínua.



