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Com regras mais claras para stablecoins em grandes jurisdições, a disputa sai do “quem cresce mais rápido” e entra no “quem entrega confiança, resgate, compliance e distribuição”. Entenda os novos pilares (reservas, resgate, AML, governança), como EUA/UE/HK/UK/Brasil estão enquadrando o setor e quais riscos permanecem.
Introdução
Stablecoin sempre foi “moeda estável” na narrativa — mas, por muito tempo, foi “estável” em um ambiente onde as regras eram fragmentadas e variavam muito conforme o país, a estrutura jurídica do emissor e o nível de transparência das reservas.
Isso está mudando. O próprio FMI resume o momento: stablecoins cresceram forte (em boa parte puxadas por trading cripto), carregam benefícios potenciais, mas também riscos relevantes (estabilidade macrofinanceira, integridade, operação e incerteza legal), e o cenário regulatório global está evoluindo — ainda fragmentado, mas avançando.
E é aqui que entra a frase: “agora tem rulebook, começa a competição”. Com um “manual de regras” mais definido em centros importantes, a competição deixa de ser só marketing e liquidez e vira uma disputa de confiança institucional, capacidade de resgate, compliance e distribuição.
Por que o rulebook muda o jogo
Quando um setor ganha regras claras, normalmente acontece uma “virada” em quatro frentes:
O mercado separa quem é infraestrutura de quem é aposta
A lógica de pagamentos não tolera “talvez”. Em stablecoins, isso significa: resgate previsível, reservas conservadoras, custódia sólida, controles de risco e governança auditável.
Esse foco cresce porque o tamanho do mercado também cresceu. O BCE apontou que a capitalização combinada de stablecoins passou de US$ 280 bilhões e que USDT e USDC dominam grande parte do total — além de lembrar que stablecoins em euro ainda são pequenas.
Compliance vira vantagem competitiva
Com regras, “estar em conformidade” deixa de ser custo e vira moat (barreira): quem consegue operar com padrões bancários (AML, sanções, auditoria, segregação) tende a ter mais portas abertas com corretoras, bancos, PSPs e empresas.
Distribuição supera narrativa
Stablecoin vira trilho. Trilho vence quando tem integrações com exchanges, carteiras, adquirentes, bancos, fintechs, tesourarias corporativas e, em alguns casos, governo. Sem isso, fica nichada.
A competição passa a ser em “qualidade do dólar/euro on-chain”
Não é só “paridade”. É:
- quão rápido resgata,
- quão transparente é o lastro,
- quão resiliente é em crise,
- quão aceito é globalmente,
- quão seguro é juridicamente se o emissor quebrar.
O que está virando “padrão” no mundo
Apesar das diferenças entre países, os regimes convergem para pilares parecidos (o FMI e o FSB são referências importantes nessa convergência).
Os blocos mais recorrentes do rulebook são:
Reservas e qualidade do lastro
Tendência: exigir lastro 1:1 com ativos conservadores, líquidos e de alta qualidade, além de regras de custódia e segregação. O FSB enfatiza reservas ao menos iguais ao circulante, composição conservadora e proteção das reservas contra credores em caso de insolvência.
Direito de resgate e “timely redemption”
Se o usuário não consegue resgatar quando precisa, a “estabilidade” vira ilusão. O FSB reforça resgate robusto, tempestivo e sem barreiras abusivas, inclusive sob estresse.
AML, sanções e controles de integridade
Stablecoin não pode ser “canal cego” para lavagem e evasão. Em regimes mais duros, emissores precisam ter capacidade técnica e processos para cumprir ordens legais.
Governança, auditoria e transparência
Relatórios, padrões de disclosure e supervisão contínua passam a ser “pré-requisito” para operar em escala.
Regras para serviços e distribuição
Não é só o emissor: corretoras, custodiante, carteiras e plataformas também entram no perímetro (o que “limpa” o mercado, mas pode reduzir opções).
Como isso aparece nas grandes jurisdições
A seguir, uma visão prática de como o rulebook está se materializando.
Estados Unidos
Com a GENIUS Act, os EUA passaram a ter um marco federal para “payment stablecoins”. Entre os pontos destacados oficialmente estão: sujeição ao Bank Secrecy Act (AML/sanções), e exigência de capacidade técnica para apreender/congelar/burnar stablecoins quando legalmente exigido. The White House+1
Isso aumenta “compatibilidade” com o sistema financeiro tradicional — e muda a competição para quem consegue operar com compliance pesado e relações institucionais.
União Europeia
Na UE, o MiCA/MiCAR estabeleceu regras para emissores e prestadores de serviços, e a ESMA tem publicado orientações para implementação e padronização de dados e disclosures. Esma+1
Além disso, a ESMA também tratou do tema de stablecoins não conformes e prazos de adequação/limitação de serviços, sinalizando fiscalização mais coordenada.
Resultado: competição mais forte em licenciamento, conformidade e capacidade de operar dentro da UE sem depender de “atalhos”.
Hong Kong
Hong Kong implementou um regime de licenciamento para emissores de stablecoins referenciadas a moeda fiduciária (fiat-referenced) desde 1º de agosto de 2025, exigindo licença e publicando guias de supervisão e AML/CFT.
Importante: o próprio registro oficial indicava, no último update, que ainda não havia emissor licenciado — o que mostra que o “rulebook” pode ser rígido o suficiente para desacelerar o mercado no curto prazo, mas elevar o padrão no longo.
Reino Unido
O Bank of England publicou consulta para um regime de stablecoins sistêmicas denominadas em libra para pagamentos no UK, indicando uma arquitetura onde a FCA atuaria em regras de conduta/consumidor/competição e o BoE em requisitos prudenciais quando a stablecoin for “sistêmica”.
Isso sinaliza competição em “nível infraestrutura”, não apenas cripto.
Brasil
O Banco Central do Brasil publicou regras para o mercado de ativos virtuais com vigência a partir de fevereiro de 2026, incluindo o enquadramento de transações com stablecoins atreladas a moeda como operações de câmbio — ampliando o perímetro de supervisão e exigindo padrões de governança e controles.
Para o investidor brasileiro, esse detalhe é enorme: stablecoin deixa de ser “só cripto” e passa a ser também tema cambial e regulatório, com impactos em reporte, conformidade e potencial tributação/encargos dependendo de normas complementares.
Onde a competição realmente começa
Com o rulebook, o ranking tende a ser decidido por cinco alavancas:
Confiança e transparência do lastro
Auditoria, relatórios, custódia e qualidade dos ativos de reserva viram “produto”. Se o mercado entender que o lastro é frágil, o risco de depeg e corrida aumenta (tema que bancos centrais vêm destacando como vulnerabilidade).
Capacidade de resgate sob estresse
O “teste” não é dia bom — é dia ruim. Regulação coloca o resgate no centro exatamente para reduzir risco de corridas.
Compliance e capacidade de cumprir ordens legais
Em alguns regimes, a capacidade de congelar/burnar por ordem legal vira requisito explícito. Isso aumenta aceitação institucional, mas também reforça um trade-off: stablecoin mais “compliance-first” tende a ser menos “censorship-resistant”.
Distribuição e integrações
Quem estiver integrado a carteiras, exchanges, PSPs, bancos e trilhos de pagamento ganha escala. Sem distribuição, stablecoin vira commodity sem volume.
Interoperabilidade e padronização
Padrões de dados, reporting e requisitos técnicos (como os que a UE vem empurrando) reduzem fricção — mas podem expulsar players menores que não conseguem se adequar.
O que permanece como risco (mesmo com rulebook)
Regulação ajuda, mas não elimina risco. Principais pontos:
- Depeg: pode ocorrer por choque de liquidez, falha operacional, crise de confiança ou risco jurídico.
- Risco de contraparte e insolvência: o que acontece com o usuário se o emissor quebrar depende da estrutura legal e do tratamento de reservas.
- Risco regulatório: mudanças de entendimento, enforcement e proibições por jurisdição.
- Risco operacional/ciber: custódia, hacks, falhas de smart contract, falhas de governança.
- Risco de “dolarização” e fluxos: em países emergentes, stablecoins podem amplificar substituição de moeda e volatilidade de fluxos (alerta recorrente em discussões de política).
Como o investidor/trader pode usar isso sem cair em hype
Se você usa stablecoin para operar, guardar caixa, arbitrar ou fazer remessas, trate como instrumento financeiro, não como “dinheiro neutro”.
Checklist rápido de diligência:
- Quem é o emissor e sob qual jurisdição ele responde?
- Como é o direito de resgate e em quanto tempo?
- O que compõe as reservas e com qual transparência?
- Existe risco de bloqueio por sanções/ordem legal e isso é aceitável para seu uso?
- Em quais plataformas ela tem liquidez real (profundidade de book) e pares relevantes?
E gestão de risco: diversificar stablecoins, limitar exposição, evitar “yield” sem entender risco de contraparte e sempre ter plano de saída (resgate/fiat).
FAQ
O que significa “agora tem rulebook”?
Significa que grandes jurisdições estão definindo exigências mínimas para stablecoins (reservas, resgate, AML, governança, supervisão), reduzindo a zona cinzenta que permitia modelos frágeis crescerem sem padrão claro.
Regulação torna stablecoin “sem risco”?
Não. Ela tende a reduzir alguns riscos (principalmente de governança e transparência), mas depeg, risco operacional e risco jurídico ainda existem.
Por que USDT e USDC importam tanto nessa competição?
Porque dominam a maior parte do market cap de stablecoins e funcionam como principal infraestrutura de liquidez no mercado cripto.
O que muda para brasileiros com stablecoin tratada como câmbio?
A tendência é aumentar supervisão, obrigações de conformidade e potencial impacto em regras de reporte/tributação conforme normas complementares avancem.
Stablecoin regulada é melhor para pagamentos?
Geralmente, sim para uso institucional e empresas (por previsibilidade e compliance). Mas pode ter trade-offs como maior capacidade de bloqueio por ordem legal e mais fricção regulatória.
Conclusão (com CTA)
O debate “agora tem rulebook, começa a competição” é, no fundo, a transição de stablecoin como produto cripto para stablecoin como infra de pagamentos e liquidação. Com EUA, UE, Hong Kong, UK e Brasil avançando em perímetros e exigências, a vantagem competitiva tende a migrar para quem combina lastro sólido, resgate robusto, compliance, governança e distribuição — sem ignorar que risco ainda existe e precisa ser gerido



