Binance em Abu Dhabi, Coinbase de volta à Índia: como as grandes exchanges estão se posicionando nos mercados emergentes

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Binance ganha licença global no ADGM em Abu Dhabi e Coinbase volta a cadastrar usuários na Índia após mais de dois anos. Entenda o que esses movimentos dizem sobre regulação, adoção cripto em emergentes e o novo mapa das exchanges globais.


Introdução: duas peças novas no tabuleiro global das exchanges

Enquanto o preço do Bitcoin oscila e o mercado discute juros do Fed, as grandes exchanges estão redesenhando onde e como vão operar no longo prazo.

Duas notícias recentes chamam atenção:

  • a Binance se tornou a primeira exchange de criptomoedas a receber uma licença global sob o framework do Abu Dhabi Global Market (ADGM), com aprovação direta da FSRA, o órgão regulador financeiro do centro internacional de Abu Dhabi;
  • a Coinbase voltou a aceitar cadastro de usuários na Índia, depois de mais de dois anos fora do país, permitindo por enquanto apenas trade cripto-cripto e planejando liberar on-ramp fiduciário em 2026.

De um lado, a Binance escolhe Abu Dhabi como hub regulatório global, com uma estrutura de três entidades espelhando o mercado financeiro tradicional.
Do outro, a Coinbase volta para a maior base de usuários cripto do mundo em número absoluto, a Índia, que já soma cerca de 119 milhões de usuários.

Neste artigo, a gente destrincha:

  • o que exatamente é essa licença da Binance no ADGM e por que ela é diferente;
  • como a Coinbase está reentrando na Índia e o tamanho real desse mercado;
  • o que isso revela sobre a estratégia das exchanges globais em mercados emergentes;
  • e o que isso significa para traders e investidores inclusive no Brasil.

1. Binance em Abu Dhabi: licença global sob o ADGM

1.1. O que é o ADGM e o que a Binance conseguiu

O Abu Dhabi Global Market (ADGM) é um centro financeiro internacional baseado em Abu Dhabi, com seu próprio regulador financeiro, a FSRA, e um framework regulatório reconhecido globalmente para ativos digitais.

Em um anúncio recente, o ADGM e a própria Binance confirmaram que:

  • a Binance se tornou a primeira exchange de cripto a obter uma “global license” completa sob o framework do ADGM;
  • o licenciamento cobre o Binance.com, a plataforma global, não só uma operação local separada;
  • a autorização é abrangente, com três entidades reguladas distintas dentro do ADGM, cada uma com funções específicas.

Segundo o próprio ADGM e comunicados ligados à Binance, essas três entidades são:

  1. Nest Exchange Services Limited (RIE – Recognised Investment Exchange)
    • opera a plataforma de negociação (“multilateral trading facility”);
    • responsável por spot e derivativos “on-exchange”.
  2. Nest Clearing and Custody Limited (RCH – Recognised Clearing House)
    • cuida de clearing, liquidação e custódia de ativos digitais;
    • atua como contraparte central e guardião dos fundos dos clientes.
  3. Nest Trading Limited (Broker-Dealer)
    • responsável pelas operações off-exchange, como OTC, conversões e gestão de ativos.

A previsão é que o Binance.com comece a operar plenamente sob a estrutura do ADGM em 5 de janeiro de 2026, com migração de contratos, posições de derivativos e atualização de termos de uso e política de privacidade para os novos controladores de dados.

1.2. Por que essa licença importa tanto?

Alguns pontos que tornam esse movimento diferente de uma licença qualquer:

  • escopo global: a autorização foi desenhada explicitamente para permitir que a Binance use o ADGM como base regulatória para sua plataforma global, não apenas para o mercado local de Abu Dhabi;
  • estrutura “tradfi”: exchange, clearing e broker-dealer separados, em linha com a estrutura de mercados tradicionais (bolsa + clearing house + broker);
  • sinal de compromisso com compliance: após anos de pressão regulatória em várias jurisdições, essa licença sob um framework considerado “gold standard” em digital assets é uma tentativa clara de reposicionar a imagem da Binance.

Na prática, isso significa que:

A Binance está escolhendo um “porto regulatório seguro” no Oriente Médio para dar lastro jurídico às suas operações globais, tentando agradar reguladores, usuários institucionais e grandes parceiros ao mesmo tempo.


2. Coinbase de volta à Índia: reentrada cautelosa no maior mercado de usuários

2.1. Reabertura de cadastro, mas só cripto-cripto

Depois de ter suspendido serviços na Índia em 2022 a 2023 por problemas com o sistema de pagamentos UPI e pressões regulatórias, a Coinbase anunciou, durante a India Blockchain Week, que:

  • reabriu o app para novos cadastros no país após mais de dois anos de pausa;
  • por enquanto, permite apenas negociação cripto-cripto – ou seja, o usuário não consegue ainda depositar rupias diretamente;
  • o plano é lançar um on-ramp fiduciário em 2026, permitindo que os indianos coloquem dinheiro em rupias e comprem cripto direto no app.

O movimento é cuidadoso:

  • a Coinbase ainda precisa navegar um ambiente com
    • tributação pesada (30% de imposto sobre ganhos + 1% de TDS por transação),
    • falta de lei clara para cripto,
    • e histórico de atrito com o sistema de pagamentos local (NPCI).

2.2. O tamanho do mercado cripto na Índia

A Índia hoje é, em números absolutos, o maior mercado de usuários de cripto do mundo:

  • cerca de 119 milhões de usuários de criptomoedas, segundo estimativas recentes;
  • mercado avaliado em US$ 2,6 bilhões em 2024, com projeção de chegar a US$ 15 bilhões até 2035, a um CAGR superior a 17%;
  • 72% dos investidores cripto têm menos de 35 anos, com Gen Z (18 a 25) superando Millennials em participação;
  • além disso, cidades de segunda e terceira linha (Indore, por exemplo) estão crescendo até mais rápido que grandes metrópoles em adoção cripto.

Isso torna a Índia um mercado estratégico gigantesco para qualquer grande exchange:

mesmo com impostos altos e regras ainda confusas, a combinação de população jovem + digitalização + sede por ativos de risco faz da Índia um dos polos de adoção mais importantes do mundo.


3. Dois movimentos, uma mesma tendência: cripto “regulada” em emergentes

Quando a gente junta as duas pontas — Binance no ADGM e Coinbase na Índia, aparece uma narrativa clara:

3.1. Binance: emergente como hub regulatório

  • Abu Dhabi/ADGM se posiciona como hub global de ativos digitais, oferecendo um framework robusto e amigável às empresas de cripto;
  • Binance, que já enfrentou investigações e restrições em mercados como EUA e Europa, passa a ter:
    • um endereço regulatório central,
    • uma narrativa forte de compliance, governança e proteção ao usuário,
    • e um argumento extra para atrair institucionais que exigem base regulatória sólida.

3.2. Coinbase: emergente como mar de usuários

  • A Índia concentra massa de usuários, não necessariamente o maior volume financeiro por cabeça, mas uma base gigantesca e em crescimento;
  • ao voltar para lá mesmo com impostos altos e incerteza regulatória, a Coinbase está dizendo:
    • “não dá para ficar fora desse mercado a longo prazo”;
    • “vamos entrar com cautela, cripto-cripto, e construir relacionamento até poder integrar fiat em 2026”.

No fundo, são duas faces de um mesmo movimento:

exchanges globais usando mercados emergentes tanto como “porto regulatório” (caso ADGM) quanto como “oceano de usuários” (caso Índia).


4. O que isso impacta na vida de quem investe e faz trade

4.1. Mais segurança e supervisão (lado positivo)

Com Binance sob ADGM e Coinbase buscando se alinhar às exigências indianas, a tendência é de:

  • processos de KYC e AML mais rígidos;
  • maior obrigação de segregar fundos de clientes, manter reservas, seguir padrões de governança;
  • mais transparência em termos de
    • quem é o regulador,
    • onde a empresa está sediada,
    • quais são as regras de proteção ao consumidor.

Para o investidor de varejo, isso tende a significar:

  • menos risco de “sumir do mapa” por falhas básicas de governança;
  • mais clareza em caso de disputas, bloqueios ou investigações.

4.2. Menos anonimato e mais “cara de banco” (lado incômodo)

Por outro lado:

  • o custo de compliance sobe e isso costuma ser repassado em taxas, spreads ou requisitos mínimos;
  • a experiência em grandes CEX fica cada vez mais parecida com a de um banco ou corretora tradicional:
    • onboarding com documentos,
    • monitoramento de transações,
    • eventuais bloqueios e pedidos de comprovação de origem de recursos.

É o trade-off clássico:

mais segurança e institucionalização em troca de menos “liberdade absoluta” que marcou a fase inicial de cripto.


5. O que isso sinaliza para o investidor brasileiro

Mesmo olhando de longe, esse movimento traz alguns recados importantes para quem está no Brasil:

  1. O padrão de referência está subindo
    • ADGM, Europa (MiCA), Brasil (BC + CVM), Índia, todos caminham na direção de regras mais claras e mais exigentes;
    • exchanges que quiserem jogar o jogo global terão que se adaptar a esses padrões, o que respinga aqui.
  2. Mercados emergentes são o campo de batalha real
    • Abu Dhabi, Índia, Indonésia, Brasil, Nigéria… são países que combinam
      • demografia favorável,
      • apetite a risco,
      • e governos dispostos a disputar a posição de hub.
    • isso significa mais oferta de produtos, mas também mais disputa regulatória.
  3. Usuário final precisa aprender a ler “jurisdição + licença”
    • não basta saber se a exchange é “grande”;
    • é cuidar de perguntas como:
      • “Quem é o regulador dessa operação?”
      • “Qual lei se aplica se der problema?”
      • “Onde estão custodiados meus ativos?”

FAQ – Perguntas frequentes

1. A licença da Binance no ADGM vale para o mundo todo?
Juridicamente, a licença é concedida pelo ADGM/FSRA, em Abu Dhabi. O ponto é que o arranjo foi desenhado para que o Binance.com, a plataforma global, opere sob esse guarda-chuva regulatório o que dá à Binance um “porto regulatório” para justificar suas operações perante outros países. Cada jurisdição, porém, ainda pode impor suas próprias regras.


2. O que muda pro usuário comum da Binance com essa licença?
Segundo comunicados, a experiência de uso deve mudar pouco no front-end:

  • mesma conta, saldo, histórico e telas;
  • a diferença é que, por trás, os serviços passam a ser prestados por três entidades reguladas no ADGM;
  • e os Termos de Uso e Política de Privacidade vão apontar essas entidades como responsáveis pela custódia, clearing e intermediação.

3. A Coinbase já permite comprar cripto em rupias na Índia?
Ainda não. Hoje, a Coinbase reabriu cadastro e trade cripto-cripto, mas o on-ramp fiduciário (depósito em rupias) está planejado para 2026, de acordo com declarações feitas na India Blockchain Week.


4. A Índia é realmente o maior mercado cripto do mundo?
Em número de usuários, sim. Relatórios recentes estimam cerca de 119 milhões de usuários de criptomoedas na Índia, mais do que qualquer outro país, mesmo com impostos pesados e ambiente regulatório ainda incerto.


5. Isso torna cripto mais “seguro” como investimento?
Ajuda na infraestrutura de segurança e governança das exchanges, mas não muda a natureza do ativo:

  • criptomoedas continuam sendo ativos de alto risco,
  • com volatilidade forte e possibilidade real de perda de capital.

A regulação melhora o ambiente operacional, mas não elimina risco de mercado. Gestão de risco (tamanho de posição, diversificação, horizonte de prazo) continua sendo essencial.


Conclusão: exchanges globais estão escolhendo seus “portos”

Binance usando o ADGM em Abu Dhabi como hub regulatório global,
Coinbase voltando para a Índia, o maior mercado em número de usuários, mesmo com um cenário de impostos e regras duras.

As duas notícias, juntas, mostram que:

o futuro das exchanges globais passa por mercados emergentes — tanto como base de usuários quanto como base regulatória.

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